No coração da minha biblioteca está a biblioteca do meu pai. Quando eu tinha 17 ou 18 anos e comecei a dedicar a maior parte do meu tempo à leitura, devorei os volumes que o meu pai guardava na nossa sala de estar, bem como os que eu descobria nas livrarias de Istambul. Nesses tempos, se eu lesse um livro da biblioteca do meu pai e gostasse dele, levava-o para o meu quarto e colocava-o no meio dos meus livros. O meu pai que ficava satisfeito por ver que o seu filho lia, ficava também feliz ao ver alguns dos seus livros a emigrarem para a minha biblioteca. Naquela altura faltava à Turquia o tipo de biblioteca onde conseguíssemos facilmente encontrar qualquer livro que quiséssemos. Assim, percebi que teria de construir a minha própria biblioteca. Entre 1970 e 1990, a minha maior preocupação era comprar livros para a minha biblioteca. Queria que ela incluísse todos os livros que eu considerava importantes ou úteis. Passei muitas horas e dias nas pequenas lojas do mercado de livros usados em Beyazit, Pesquisava todas as prateleiras e inspeccionava todos os livros. Após regatear com o vendedor, levava-os todos. Quando a minha mãe, que estava preocupada comigo, porque achava que eu lia demais, me via a trazer mais livros do que conseguiria alguma vez ler, dizia, aborrecida:”Por uma vez na vida, não vás comprar mais livros até teres acabado estes”. Eu não comprava como faz o coleccionador, mas sim como uma pessoa frenética…
Orhan PamuK, Prémio Nobel da Literatura (Público, 10 de Janeiro de 2009)
Orhan PamuK, Prémio Nobel da Literatura (Público, 10 de Janeiro de 2009)

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