domingo, 15 de março de 2009

Dewey, o gato que comoveu o mundo

Os livros que incidam sobre bibliotecas ou que façam a mais pequena menção a este espaço que eu tanto admiro e prezo despertam de imediato o meu interesse, levando-me ao prazer da leitura.
A rotina da pacata cidade de Spencer, Yowa, Estados Unidos, transformou-se quando Dewey, um gato, foi encontrado na caixa das devoluções da Biblioteca Pública. A directora da Biblioteca, Vicki Myron, conta a história real de um gato que fez da biblioteca, e da cidade de Spencer, sua casa: “Como é possível que um gato abandonado transforme uma pequena biblioteca, salve uma típica cidade americana e se torne famoso em todo o mundo? A história de Dewey começa da pior forma possível. Com apenas algumas semanas, na noite mais fria do ano, foi enfiado na caixa de devolução de livros da Biblioteca pública de Spencer. Encontrado na manhã seguinte, Dewey conquistou o coração de todos os funcionários da biblioteca, ao distribuir por todos gestos de agradecimento e amor. Nos anos que se seguiram, nunca deixou de encantar as pessoas de Spencer com o seu entusiasmo, vivacidade e, acima de tudo, o seu sexto sentido: percebia sempre quem necessitava mais dele. À medida que a sua fama crescia de cidade em cidade, de estado em estado e, surpreendentemente, por todo o mundo, Dewey tornou-se, mais que um amigo, um motivo de orgulho de uma extraordinária cidade rural no coração da América, que lentamente se ergueu da maior crise da sua história.”

domingo, 8 de março de 2009

A sociedade da vigilância







A Sociedade Vigilante

Autor: Frois, Catarina
Editora: ICS Instituto Ciências Sociais
Data de Publicação: 01-01-2009
Nº de Páginas: 302
ISBN: 978-972-671-228-2
Um conjunto de ensaios de proeminentes cientistas sociais nacionais e internacionais, que procuram problematizar a implementação e legitimação de vários mecanismos de controlo vigentes na sociedade contemporânea. Aqui são abordados temas como a videovigilância; o policiamento; a introdução de novos cartões de identificação; a regulação das políticas de protecção da privacidade individual; o uso e recolha de dados pessoais (estatísticos e genéticos) para fins governamentais ou comerciais. Os autores deste livro propõem-se mostrar que estar alerta, ser-se vigilante, é uma preocupação pertinente para a academia, para decisores políticos e para a sociedade civil, procurando contribuir para um debate lúcido e informado em torno destas matérias.

Empresas vão às redes à caça de dados pessoais

A partilha é a chave das redes sociais: de pensamentos a fotografias, de trabalhos a músicas. No fundo, de informação. Por isso, estas são consideradas um perigo latente pela Comissão Nacional da Protecção de Dados (CNPD). O problema não está nas redes mas na forma como as pessoas as utilizam: os próprios utilizadores disponibilizam muita informação pessoal e a partir do momento em que o fazem, ela fica lá para sempre. Muitas redes pedem e as pessoas dão voluntariamente informação sobre opções religiosas e políticas, orientação sexual, ou seja, dados que são especialmente protegidos de acordo com a lei. A partir do momento em que são oferecidos, as autoridades só podem agir quando são cometidos crimes. Em primeiro lugar há uma faceta comercial: ninguém danada a ninguém e nestas redes as inscrições são gratuitas. Logo, tem de haver algum retorno. E a informação pessoal vale dinheiro. Com base na informação dada é possível estabelecer perfis, agrupar as pessoas e fazer publicidade mais direccionada. As pessoas são catalogadas, etiquetadas, sem o saberem. Mas não são só as empresas que querem vender produtos a ficar interessadas pelos dados. Nalguns países, já há uma utilização abusiva por parte das empresas que querem contratar. Têm umas dezenas de candidatos e fazem pesquisas na Internet para decidir. As redes incentivam uma ilusão prejudicial: tenta-se incutir nas pessoas que estão numa comunidade de amigos. A informação que disponibilizamos sobre os nossos hábitos e gostos é também problemática porque permite que as outras pessoas estabeleçam uma ponte: é fácil os criminosos usarem essa informação e criar uma suposta afinidade e, em última análise, até localizarem a pessoa com uma busca simples.

In, Diário de Notícias, 14/02/2009

As redes que nos unem: a geração Facebook

As redes sociais estão na moda. Já não são só os adolescentes a gastar horas frente ao computador – as gerações mais velhas estão a descobrir as vantagens de sites como o Facebook ou o Twitter. Jornalistas e políticos também são seduzidos pela facilidade e rapidez da comunicação. Encontram amigos que já não viam há anos e trocam informação. Divulgam trabalhos e recebem notícias de todo o mundo. E sempre na mesma página. A grande vantagem das redes sociais é serem o que quisermos. Vieram para ficar…As redes sociais mais populares são o HI5, MySpace, ORkut, Linkedin, e ainda, o Last.fm e o Blip.fm (redes sociais e recomendações musicais), o QQ.com, o Qype (rede social de críticas e recomendações sobre lojas, restaurantes, bares, etc.) e o Tuenti.

In, Diário de Notícias, 14/02/2009, Patrícia de Jesus

O Twitter já é assunto político

O Twitter, o famoso sistema de microblogging, tem já três anos, mas só agora sete deputados e a Presidência da República se iniciaram nesta rede social. Os debutantes rapidamente se ajustaram ao ritmo e começaram a usar o espaço, adaptando-o aos seus interesses. O Twitter é como um blogue mas é micro - as mensagens têm um limite de 140 caracteres. Mas o Twitter é também uma rede social: tudo o que é escrito por alguém é também visto por todos os “amigos”, isto é, todas as pessoas que escolheram seguir uma pessoa e ler as mensagens que esta deixa. Também, o blogue Minuto a Minuto, dinamizado por jornalistas parlamentares, pretende ser um espaço de acompanhamento de acontecimentos políticos em directo. Até agora já o fez com os congressos do PCP e do CDS e dois debates quinzenais com o primeiro ministro. Estas iniciativas levaram a que, para participarem, os deputados se inscrevessem primeiro no Twitter. Em Portugal, contrariamente ao que já se faz lá fora (Baraka Obama é denominado o “Presidente wiki”), os políticos ainda dão os primeiros passos no Twitter, que lhes proporciona ganhos de imagem, uma vez que lhes confere um ar de modernidade e de acompanhamento da actualidade. Também, lhes facilita a comunicação embora esta seja uma conversa, um discurso sem rodeios, ou seja, um estilo a que os políticos não estão habituados.

In, Público, 24/01/2009, Patrícia Silva Alves

O sucesso da Casa da Leitura: uma casa para ajudar a ler

A Casa da Leitura é um projecto iniciado há três anos pela Fundação Calouste Gulbenkian, fornecendo o seu site sugestões de leitura e de trabalho dirigidas crianças e jovens. A convicção dos especialistas é a de que o contacto precoce com os livros, mesmo antes de saber ler, é essencial para formar leitores. A literacia visual, como primeiro passo para a literacia literária, foi uma ideia presente durante o Congresso onde se discutiram e analisaram políticas, estratégias e métodos para a formação de novos públicos leitores. O livro e a leitura são compatíveis com a televisão, a Internet e os jornais e o diálogo directo. Há um enorme trabalho a desenvolver para promover a leitura que não cabe só à escola. Trata-se de uma causa da família e de tudo quanto nos rodeia, nomeadamente os meios de comunicação social. A Fundação continua a apoiar bibliotecas, a rede de bibliotecas escolares, proporciona formação a bibliotecários, prossegue o seu plano de edições e o trabalho de promoção do livro, nomeadamente por meio o da revista Colóquio/Letras. Aqui ficam registadas algumas das afirmações feitas: “ler é como andar – é poder viajar no espaço e no tempo”, “é um acto de liberdade”, “é uma droga dura, uma forma de vida, uma paixão que nos abre e fecha caminhos”. Para Marcel Proust os livros eram uma amizade sem frivolidade, sendo a leitura como uma forma de possessão. Como se ensina a paixão pela leitura? Fernando Savater respondeu:”Não sei, a minha Mãe contava-me histórias, é por contágio”.
In, Diário de Notícias, 24/01/2009, Ana Marques Gastão

Juízes dizem que governo viola segredo de justiça: processos com formato digital geram polémica

Um grupo de juízes acusou o Ministério da Justiça de estar a violar o segredo de justiça com o Citius-programa que transforma processos em forma digital e que permite a prática de actos judiciais também em via digital. Assim, qualquer funcionário da DGAJ pode ter acesso a qualquer processo inserido electronicamente. Mas mais grave ainda é um funcionário da mesma direcção com perfil de administrador de sistema ter acesso de escrita. O que significa que pode alterar uma decisão proferida por um juiz ou uma acusação elaborada por um procurador do Ministério Público. O Secretário de Estado da Justiça contrapôs afirmando que as portas de acesso estão bloqueadas e que só é possível desbloqueá-las com password pessoal e intransmissível dos magistrados. Acrescentou também que as sentenças e despachos dos magistrados são assinados com assinaturas digitais que envolvem a utilização de cartões smartcard e códigos PIN pessoais e intransmissíveis, o que impede alterações às suas decisões por terceiros. No entanto, a procuradora-geral adjunta Maria José Morgado considerou que a aplicação informática Citius não cumpre os perfis mínimos de segurança e que qualquer utilizador pode ter acesso a todo a informação que conste do inquérito crime em segredo de justiça.

In, Diário de Notícias, 30/01/2009, Filipa Ambrósio de Sousa

Estratégia de Lisboa: 2013 ou 2020

Um pouco por todos os países e também em Portugal revêem-se estratégias, apontam-se caminhos que têm de ser escolhidos. Um tempo novo suscita novos paradigmas. A Estratégia de Lisboa, neste período de adaptação aos novos tempos, tem também que reflectir o imperativo destes ajustamentos, uma vez que, marca o ritmo da ambição de quem quer subir de forma clara no difícil “ranking” da competitividade, inovação e qualificação, as novas bandeiras da liderança no mundo. Fazer do conhecimento a matriz estratégica de uma plataforma secular que se quer reencontrara nas fronteiras da modernidade é a única aposta possível para a Europa neste complexo e competitivo mundo global. A União Europeia não pode fugir ao desafio. A teoria da sociedade em rede defendida por Manuel Castells está mais do que nunca presente neste relançamento colectivo que se pretende para a Europa. É essencial reforçar níveis de cooperação, articular estratégias de actuação, partilhar apostas de criação de valor. É preciso dar ao conhecimento o seu papel central. Há um tempo novo para a Estratégia de Lisboa. Uma oportunidade única e decisiva, de construir uma Rede Global que faça do mais velho continente o admirável mundo novo onde vale a pena viver.

In, Expresso, 13/12/2008, Francisco Jaime Quesado

sábado, 7 de março de 2009

Cultura e comércio

Gostaríamos de acreditar que cultura e comércio se excluem, que a cultura circula e se adquire por meios não comerciais, mais próximos do culto e do oculto; que tem algo de poção iniciática. Durante milhares de anos admitiu-se que o conhecimento provinha dos céus e se partilhava através da iniciação. A transmissão oral do conhecimento era normal nas corporações medievais, nas sociedades maçónicas, entre outras. O saber que se vende ou se publica degrada-se: comercializa-se. Queremos que os livros se democratizem, que possam ser lidos por todos, mas que não cessem de ser sagrados. É certo que a cultura não é mercadoria. A cultura moderna nasceu com a revolução da imprensa. O comércio do livro cresce com a revolução comercial e prefigura a industrial (o livro impresso é uma das primeiras manufacturas cujo preço baixa pela estandardização). Todo o comércio é conversação, portanto cultura. Fica muito bem sentir que os livros não são mercadoria, mas sim diálogo, revelação.

In, Gabriel Zaid, Livros de mais (Adaptação)

Ler não serve para nada: é um vício, um puro prazer, uma felicidade


Há profetas que anunciam o desaparecimento do livro, como juízo tecnológico não resiste à menor análise. Os livros podem ser folheados. Num livro tudo se busca e encontra mais facilmente, ao contrário do que sucede com a televisão, discos, etc. Mesmo em plena era “sem papel”, ainda há muita gente a labutar em escritórios que prefere trabalhar sobre cópias impressas do que sobre o ecrã. Mas o mais irónico é ver como as maravilhas electrónicas se vendem sempre com um livro de instruções impresso. Nenhum livro se vende com instruções electrónicas para facilitar a sua leitura. Um livro lê-se ao ritmo escolhido pelo leitor. E que fácil é voltar a trás, reler, deter-se, ou saltar por cima de coisas que não interessam. Os livros são portáteis. O livro é directamente legível, podendo ler-se quase em qualquer lugar e posição, de pé, sentado, deitado. Talvez a tentativa de desenvolver ecrãs tão finos e flexíveis como o papel seja a maior homenagem prestada pela tecnologia moderna às vantagens dos livros antigos: e-books disfarçados de livros impressos. Os livros não requerem um encontro previamente agendado. O livro submete-se à agenda do leitor: pode estar disponível onde e quando este quiser. Não exige marcação prévia de encontro. Os livros são baratos e permitem maior variedade. Os livros mesmo sem anúncios nem subsídios, pagam-se com poucos milhares de leitores. O tempo é, de longe, o aspecto mais caro da leitura, com poucas excepções (o tempo passado no trânsito, na prisão, na doença ou na reforma).

In, Gabriel Zaid, Livros de mais (Adaptação)

Tecnologia


Os livros também estão a ser “arrastados” para a era digital. A Amazon lançou a segunda geração do leitor de e-books, o Kindle 2, apresentado como uma promessa: além da função da leitura, o acesso directo, através de ligação wireless, aos livros disponíveis na Kindle Store, mais de 230 mil títulos, entre livros, revistas, jornais e blogues.


In, Notícias Sábado, 21 de Fevereiro 2009

Os livros…


Cresci rodeado de livros, e essa sorte marcou-me para toda a vida.

“Talvez não haja dias da nossa infância
que tenhamos vivido tão intensamente como
aqueles que julgámos passar sem os ter vivido,
aqueles que passámos com um livro preferido.”
Marcel Proust

“ Os que dividem a magia em branca e negra
estão enganados. Esquecem que a magia
mais poderosa e magnífica é a do negro sobre
o branco. A escrita, e a leitura, claro,
que é o seu complemento.”

José António Marina e María de la Vólgona


In, Livros de mais, Gabriel Zaid

A bloguização da comunicação social

As relações entre os blogues e a comunicação social têm vindo a evoluir, mostrando aspectos novos do sistema comunicacional. Numa primeira fase, a reacção da comunicação social face aos blogues era de hostilidade e desconfiança, porque estes traziam novos temas que os jornais, rádios e televisões não tratavam ou ignoravam. Depois, as coisas foram mudando e, pouco a pouco, os jornais começaram a citar os blogues e a permitir que informações que aí se encontravam acabassem por ser notícia nos jornais. Entrou-se pois numa nova fase, em que a agenda dos blogues se tornou cada vez mais dependente da comunicação social e vice versa (…). A migração de jornalistas para os blogues acabou por ser mais importante do que a migração dos blogues para a comunicação social “exterior”(…). Lendo os blogues, pode-se hoje antecipar como os jornais vão tratar este ou aquele tema, porque se tornou evidente a dependência da “notícia” da opinião dos jornalistas. Envolvido nas guerras de blogues, em que o narcisismo impera, o jornalismo ganha os vícios dos blogues (…). Blogues e comunicação social dão relevância muito semelhante a temas marginais (casamento dos homossexuais, por exemplo), em detrimento de questões sociais muito mais sérias, como seja os despedimentos, as condições laborais, o mundo rural, etc.(…)

In, Público, 28 de Fevereiro de 2009, José Pacheco Pereira (Adaptado)

Os jornais em papel vão acabar?

Os três maiores meios tradicionais de acesso à informação estão destinados a futuros bem diferentes. É provável que os jornais em papel se tornem um objecto dirigido a nichos de mercado, enquanto a rádio e a TV se deverão fundir, cada vez mais, com o on-line, tornando-se mais interactivos.
Na realidade, as notícias não são boas para a imprensa escrita, e também não o são para a comunicação social em geral, nem para os jornalistas, em particular. E, pior do que isso, não são boas para a democracia. Mas calma. As notícias sobre a morte da imprensa escrita e sobre o declínio do jornalismo também são exageradas, ou até repetitivas. Os jornais estiveram para morrer quando apareceu a rádio. Sobreviveram-se e tornaram-se melhores órgãos de informação. Também se disse que os jornais não conseguiriam sobreviver à televisão. Sobreviveram e até prosperaram. É certo que a Internet coloca desafios completamente diferentes. Assim como é indiscutível que o ritmo das mudanças tecnológicas e a velocidade a que elas chegam à maior parte dos cidadãos não tem comparação com o gradualismo da passado, pois tudo muda de um dia para o outro em vez de levar anos a mudar. E a crise não ajuda: os cidadãos têm menos dinheiro para comprar jornais, os anunciantes cortam nos orçamentos de publicidade. Porém, o futuro da imprensa e da comunicação social é tão indissolúvel do futuro do mundo em que gostamos de viver que o jornalismo terá de sobreviver, mesmo que tenha de se reinventar.

….Quando a imprensa não fala, o povo é que não fala. Não se cala a imprensa. Cala-se o povo (William Blake, poeta e pintor inglês, 1757-1827).

In, Público, 5 de Março de 2009, José Manuel Fernandes (Adaptado)