
Há profetas que anunciam o desaparecimento do livro, como juízo tecnológico não resiste à menor análise. Os livros podem ser folheados. Num livro tudo se busca e encontra mais facilmente, ao contrário do que sucede com a televisão, discos, etc. Mesmo em plena era “sem papel”, ainda há muita gente a labutar em escritórios que prefere trabalhar sobre cópias impressas do que sobre o ecrã. Mas o mais irónico é ver como as maravilhas electrónicas se vendem sempre com um livro de instruções impresso. Nenhum livro se vende com instruções electrónicas para facilitar a sua leitura. Um livro lê-se ao ritmo escolhido pelo leitor. E que fácil é voltar a trás, reler, deter-se, ou saltar por cima de coisas que não interessam. Os livros são portáteis. O livro é directamente legível, podendo ler-se quase em qualquer lugar e posição, de pé, sentado, deitado. Talvez a tentativa de desenvolver ecrãs tão finos e flexíveis como o papel seja a maior homenagem prestada pela tecnologia moderna às vantagens dos livros antigos: e-books disfarçados de livros impressos. Os livros não requerem um encontro previamente agendado. O livro submete-se à agenda do leitor: pode estar disponível onde e quando este quiser. Não exige marcação prévia de encontro. Os livros são baratos e permitem maior variedade. Os livros mesmo sem anúncios nem subsídios, pagam-se com poucos milhares de leitores. O tempo é, de longe, o aspecto mais caro da leitura, com poucas excepções (o tempo passado no trânsito, na prisão, na doença ou na reforma).
In, Gabriel Zaid, Livros de mais (Adaptação)
In, Gabriel Zaid, Livros de mais (Adaptação)

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