sábado, 7 de março de 2009

Ler não serve para nada: é um vício, um puro prazer, uma felicidade


Há profetas que anunciam o desaparecimento do livro, como juízo tecnológico não resiste à menor análise. Os livros podem ser folheados. Num livro tudo se busca e encontra mais facilmente, ao contrário do que sucede com a televisão, discos, etc. Mesmo em plena era “sem papel”, ainda há muita gente a labutar em escritórios que prefere trabalhar sobre cópias impressas do que sobre o ecrã. Mas o mais irónico é ver como as maravilhas electrónicas se vendem sempre com um livro de instruções impresso. Nenhum livro se vende com instruções electrónicas para facilitar a sua leitura. Um livro lê-se ao ritmo escolhido pelo leitor. E que fácil é voltar a trás, reler, deter-se, ou saltar por cima de coisas que não interessam. Os livros são portáteis. O livro é directamente legível, podendo ler-se quase em qualquer lugar e posição, de pé, sentado, deitado. Talvez a tentativa de desenvolver ecrãs tão finos e flexíveis como o papel seja a maior homenagem prestada pela tecnologia moderna às vantagens dos livros antigos: e-books disfarçados de livros impressos. Os livros não requerem um encontro previamente agendado. O livro submete-se à agenda do leitor: pode estar disponível onde e quando este quiser. Não exige marcação prévia de encontro. Os livros são baratos e permitem maior variedade. Os livros mesmo sem anúncios nem subsídios, pagam-se com poucos milhares de leitores. O tempo é, de longe, o aspecto mais caro da leitura, com poucas excepções (o tempo passado no trânsito, na prisão, na doença ou na reforma).

In, Gabriel Zaid, Livros de mais (Adaptação)

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