Gostaríamos de acreditar que cultura e comércio se excluem, que a cultura circula e se adquire por meios não comerciais, mais próximos do culto e do oculto; que tem algo de poção iniciática. Durante milhares de anos admitiu-se que o conhecimento provinha dos céus e se partilhava através da iniciação. A transmissão oral do conhecimento era normal nas corporações medievais, nas sociedades maçónicas, entre outras. O saber que se vende ou se publica degrada-se: comercializa-se. Queremos que os livros se democratizem, que possam ser lidos por todos, mas que não cessem de ser sagrados. É certo que a cultura não é mercadoria. A cultura moderna nasceu com a revolução da imprensa. O comércio do livro cresce com a revolução comercial e prefigura a industrial (o livro impresso é uma das primeiras manufacturas cujo preço baixa pela estandardização). Todo o comércio é conversação, portanto cultura. Fica muito bem sentir que os livros não são mercadoria, mas sim diálogo, revelação.In, Gabriel Zaid, Livros de mais (Adaptação)

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